Irvênia Prada

Irvênia Prada

Irvenia Luiza de Santis Prada é Médica Veterinária pela Universidade de São Paulo. Profa. Titular em Anatomia Animal com enfoque em Neuroanatomia. Docente aposentada de graduação e de pós-graduação na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, onde recebeu o título de Profa. Emérita.

Foi presidente e depois assessora da Comissão de Ética, nessa Faculdade, foi presidente do Conselho Orientador do Zoológico de São Paulo e Diretora-Substituta nessa instituição, ocupa a cadeira de no. 21 na Academia Paulista de Medicina Veterinária.

Idealizadora e coordenadora do movimento “Medicina Veterinária e Espiritualidade”, junto à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, iniciado em 08 de dezembro de 2010, cujos eventos são transmitidos pela internet.

Membro da AME – Associação Médico-Espírita de São Paulo, do Brasil e Internacional, onde atua como palestrante e escritora.

É autora dos livros: - “A Alma dos Animais” (enfoque acadêmico) - “A Questão Espiritual dos Animais” (enfoque espírita).

É autora dos capítulos em livros:
1. “Os Animais são Seres Sencientes” (no livro “O Uso Prejudicial de Animais no Ensino Superior”)
2. “A Neurociência a Favor do Anencéfalo” (no livro “A Vida do Anencéfalo”, editado pela AME - Brasil)
3. “Considerações filosóficas sobre o uso que fazemos dos animais. Temos o direito de dispor deles?” (no livro “Direitos dos animais em Debate: faces da intolerância”)

Encontra-se fortemente inserida no contexto do Bem-Estar Animal, participando de cursos, palestras, congressos e debates sobre proteção e defesa dos animais. É membro do Fórum Nacional de Proteção e Defesa dos Animais.


Tema da Palestra:

Pertencemos ao universo, não somos donos dele!

Retrospectiva Histórica
Admite-se que o gênero humano tenha evoluído a partir do Australopitecus (austral = sul, pitecus = macaco), primata que teria vivido no sul da África há cerca de 3,5 milhões de anos, dele resultando, entre outras, as espécies (1): Homo habilis (teria vivido há 2 milhões da anos), Homo eretus (1 milhão de anos), Homo sapiens (500 mil anos) e Homo sapiens sapiens, a nossa espécie (35 mil anos). Pelo fato de o Homo habilis apresentar uma cavidade craniana com características mais próximas das do Australopitecus do que das outras espécies do gênero humano, existem dúvidas entre biólogos e antropólogos, se ele já poderia ser considerado “humano” ou se estaria melhor classificado entre os macacos. Portanto, a relação dos seres humanos com os animais é ancestral e muito mais íntima do que se poderia supor, o que faz cair por terra definitivamente a nossa pretensão de sermos únicos e “superiores”.
Os indivíduos da época do “Homem de Neandertal” (da espécie Homo sapiens), caçador de cervídeos e mamutes, e do “Homem de Cro-Magnon” (da nossa espécie), “caçador-artista” (pintura rupestre) se organizavam em grupos e saiam à caça de animais dos quais se aproveitavam da pele e das carnes, já com manejo utilitarista do fogo. Até aí se considera a existência de uma certa relação harmônica entre o ser humano e o meio ambiente, equilíbrio este que teria se “quebrado” na chamada “Revolução Neolítica”, ocorrida há cerca de 12 mil anos (2), quando ele deixa de viver como parte integrante dos ecossistemas e passa a ter um comportamento de domínio sobre a natureza, do que resultam o plantio, o pastoreio e a domesticação de animais.
Para Herculano Pires (3), a vivência de um “Horizonte Agrícola” (estágio da sociedade centrado na exploração da natureza) caracterizou o panorama cultural do Egito antigo (2.600 anos a. C). Tendo os elementos da natureza sob seu domínio e controle, o ser humano passa a observa-los mais atentamente, disso surgindo os conceitos de antropomorfismo (constatação da similitude de formas entre figuras humanas e de animais) e de animismo (constatação da similitude de valores enquanto funções, entre seres humanos e animais). Surge a mitificação de animais (animais sagrados), o zooantropomorfismo (figuras mistas com elementos humanos e animais) e a doutrina da metempsicose (espíritos humanos poderiam reencarnar-se em corpos de animais).
Desde os gregos, firmou-se como paradigma cultural, o antropocentrismo, forma de pensamento e de conduta que prioriza o bem-estar do ser humano, dele constando ainda a recomendação de que a natureza deveria ser explorada em seu benefício. Esse paradigma é reforçado em Aristóteles (século IV a.C.), que representava os seres vivos metaforicamente dispostos em uma pirâmide, os mais simples em sua base e os de constituição mais complexa, nos segmentos superiores. O ser humano aparecia em destaque no ponto mais alto, com o significado de que tudo o que lhe estava “abaixo”, deveria lhe servir. O exercício do poder também se fazia do ser humano mais forte sobre o mais fraco, sempre com a estratégia de considerar o subjugado “sem alma”. Assim, as mulheres foram vistas como seres sem alma, até o Concílio de Macon, no século VI e os escravos negros, até mais recentemente, no século XIX.
Entre as figuras exponenciais da chamada Revolução Científica do século XVII, destaca-se a de Descartes, que estabeleceu a concepção mecanicista do universo e dos seres vivos, interpretada pela humanidade de maneira reducionista e materialista. Valorizou-se o corpo físico, em detrimento das dimensões psíquica e espiritual. Por influência religiosa (apenas os seres humanos tinham alma, sede dos sentimentos), Descartes teria admitido que gemidos, uivos e lamentos emitidos por animais não deviam ser interpretados como sinais de dor/sofrimento, mas sim como automatismos da “máquina”, à semelhança dos ruídos de uma roda de carroça em movimento. Assim, a “coisificação” dos animais ainda permanece como estratégia de exercício de poder, pois são utilizados, explorados e descartados ao arbítrio do ser humano.

Resíduos Culturais

A nossa cultura acha-se até hoje impregnada pelo Paradigma Antropocêntrico que, adotado por teólogos medievais, tornou-se dogma oficial e absolutista do conhecimento, até o final da Idade Média, que permeou os séculos, do V ao XV.
Convivemos ainda com cientificismo (4), imediatismo e utilitarismo, com exploração inconseqüente da natureza, a serviço do bem-estar do ser humano, com total descaso pela sorte dos animais. Basta que se observe a maneira como são produzidos zootecnicamente, como são explorados economicamente, como são utilizados nos espetáculos de diversão humana, a que condições os submetemos em nossa companhia e como são disponibilizados nos laboratórios de pesquisa, onde não lhes respeitamos nem a capacidade de fruir dor/sofrimento nem o direito à própria vida.

O Que Está Mudando

Pesquisas das últimas décadas, sobre a inteligência dos animais, a natureza de sua mente e consciência, os mecanismos de sua interação cérebro-mente, e sua capacidade de exprimir emoções e sentimentos, nos levam a admitir que não sejam simples máquinas cartesianas automatizadas, mas sim seres sencientes (5), ou seja, com capacidade de fruir sensações de conforto, alegria e felicidade, bem como de dor e de sofrimento.
Grande contribuição foi dada por Gregory Bateson (1904-1980), que na década de 60 conceituou mente como “o processo cognitivo de manifestação da vida”. Com isso cai a postura cartesiana de que apenas o ser humano seria dotado dessa dimensão, que passa a ser considerada em todos os seres vivos.
Várias publicações têm nos esclarecido sobre a verdadeira natureza dos animais, entre elas “O Parente mais Próximo”, de Roger Fouts (1998), “The Prehistory of the Mind”, de Steven Mithen (1999), “Cães Sabem Quando Seus Donos Voltam Para Casa”, de Rupert Sheldrake (1999) e “Animal Minds”, de Donald Griffin (1994).
Assim, o paradígma antigo, antropocêntrico, não mais nos satisfaz. Saímos das amarras do utilitarismo, do reducionismo e do mecanicismo, para a visão holística, centrada em conceitos básicos da Física Quântica (4), segundo os quais não estamos e nunca estivemos no alto da pirâmide aristotélica, como seres excelsos, mas fazemos parte de um grande contexto universal que pode ser idealizado como uma rede multidimensional de elementos que interagem o tempo todo. Não somos mais do que um fio na teia da vida (6). Neste novo modelo é valorizada, mais do que a individualidade de cada um dos elementos, a maneira como interagem (pessoalidade). Entende-se a partir daí que a transcendência do ser humano se fará pela sua “pessoalidade”, ou seja, pela maneira harmoniosa com que buscará o bem de todos, em suas maiores e menores decisões. Substitui-se a competição pela cooperação, a exploração pela conservação, a quantidade pela qualidade, a dominação pela participação, o proselitismo pelo testemunho e se alia o racional ao intuitivo (4).

Implicações éticas

O conhecimento de que os animais não são máquinas cartesianas insensíveis, mas sim seres sencientes obriga-nos a uma nova postura ética, em relação a eles. Há que se buscarem modelos de interação harmônica entre seres humanos e animais, em todos os setores de atividade em que convivam, assim como urge o descobrimento de métodos substitutivos à utilização de animais em pesquisa e ensino (7). Mas, é necessário que tenhamos coragem para mudar, pois como refere Singer (8) “um movimento de libertação (refere-se à libertação dos animais) requer expansão de nossos horizontes morais”.
É de Carl Sagan (9), que alem de astrofísico era também biólogo, a reflexão: “Se os chimpanzés têm consciência, se têm capacidade de abstração, não devem eles ter acesso àquilo que se convencionou chamar até agora de direitos humanos? Que inteligência terão de atingir até que seu assassínio seja considerado crime?” Donald Griffin (10) também considera: “Em termos científicos, nossa antiga premissa de que os animais não têm consciência, está se tornando cada vez mais questionável. Alem do mais, há implicações éticas nesse conhecimento”. Ainda Fritjof Capra (4), físico teórico da atualidade, assevera: “...há cientistas, como eu, que estão ansiosos por fazer essa conexão (com a moral). Há fronteiras para a curiosidade humana... amarrar um animal e medir seus limiares de dor, derramar substâncias tóxicas em seus olhos e medir seu efeito sobre a retina, não é intelectualmente instigante parra mim, nem interessante ou recompensador. Esse tipo de pesquisa é repulsivo”.
Novos tempos, novas idéias, novos desafios, entre os quais o maior deles é entendermos de uma vez por todas que “não somos donos do universo, apenas pertencemos a ele” (4).